11/06/2026

Montadoras vão propor tributação vinculada à produção local

Por: Marli Olmos
Fonte: Valor Econômico
As montadoras iniciaram conversas com o governo para que os próximos
programas voltados ao setor ou mesmo os atuais sejam ajustados para que a
tributação leve em conta o conteúdo local. Ou seja, quanto mais peças nacionais
contidas no veículo, menor seria a carga de impostos e vice-versa. A discussão
esbarra na questão fiscal do país. Mesmo assim, o setor busca alternativas para
evitar o aumento da concorrência dos modelos importados.
A discussão, que ganhou corpo com o avanço da participação de carros
produzidos na China no mercado local, tenta encontrar opções. Uma delas seria
ajustar o atual programa federal para o setor automotivo, o Mover. Outra
possibilidade é aproveitar a iminência da criação do Imposto Seletivo, que
entrará em vigor em 1º de janeiro, para alterar regras tributárias.
Criado na reforma tributária, o Imposto Seletivo, também chamado de “imposto
do pecado”, visa elevar a tributação de produtos nocivos à saúde ou ao meio
ambiente. Os carros estão na mira do governo. Mas, do lado da indústria, a ideia
é propor que compromissos com redução de emissões venham acompanhados
de incentivos à produção local.
Paralelamente, no próximo 1º de julho, o Imposto de Importação de carros
híbridos e elétricos vai aumentar para o teto de 35%. Houve antecipação de
importação para evitar o aumento. Dados da indústria indicam que há, hoje, 300
mil veículos importados em estoque, enquanto o de produtos locais está em
pouco mais de 70 mil.
Para o presidente da Volkswagen do Brasil, Ciro Possobom, é a necessidade
de desovar esse estoque alto que leva a uma redução de preços, o que pressiona
a indústria local. O executivo lembra, ainda, que o imposto para veículos que
chegam ao país no sistema CKD (em kits de peças) será de 14% por mais tempo,
até janeiro, o que, segundo ele, traz mais pressão aos fabricantes locais.
Para o executivo, com a soma de um estoque de importados alto com mais seis
meses de imposto para CKD que ele considera baixo, tanto o segundo semestre
como a primeira metade de 2027 serão “períodos difíceis”.
A concorrência chinesa voltou a marcar, nesta quarta-feira (10), grande parte das
discussões no segundo dia do Anfavea Visions, evento organizado pela
Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores. Outros temas,
como uso de combustíveis alternativos, conectividade e os efeitos do avanço da
inteligência artificial no setor também foram temas de debate.Cultura
No comando da operação brasileira de uma empresa alemã, Possobom diz que
se vê hoje no desafio de mudar conceitos culturais de uma multinacional. A
disciplina e a perfeição são virtudes dos alemães. Mas os chineses dão banho em
velocidade. “Como CEO, eu tenho que combinar a disciplina alemã com a
velocidade chinesa e o jeitinho brasileiro”, diz.
Segundo o executivo, a Volks do Brasil vai entrar na era da eletrificação, mas com
a certeza de “fazer o produto certo”. Nesse sentido, para agilizar essa entrada, a
montadora poderia até recorrer ao conhecimento que já dispõe no exterior, seja
na Europa ou mesmo da China, onde tem 36 fábricas. Uma possibilidade é
adaptar projetos do exterior para o mercado brasileiro.
Existe o risco de a Volks concluir que é mais barato importar do que produzir
aqui? Possobom acha que o risco existe. Mas, ao mesmo tempo, ele, que diz ser
“fruto da indústria brasileira” não quer acreditar nessa possibilidade,
principalmente, afirma, numa empresa que está em meio a um ciclo de
investimentos de R$ 16 bilhões, que engloba o período de 2024 a 2028.
“Eu acredito em grandes volumes (de vendas). E para isso tem que ter indústria,
produção local. É uma proteção à variação do câmbio. Qualquer confusão que
afete o cambio “desmorona a importação”, diz.